Publicado por: Marcio Ramos | 12/02/2010

Fidelidade boêmia

(foto: reprodução)

Desde que comecei freqüentar baladas já tive vários clubes do coração, aqueles dos quais durante certo período fui cliente assíduo. Nessas fases, a identificação com a “minha” casa noturna era tão grande que eu me sentia a vontade até para aparecer por lá sozinho, sem combinar nada com ninguém. Ora porque estava mais interessado no som, no ambiente e nas novas companhias que surgiriam, ora porque sabia que as chances de cruzar amigos na pista eram enormes.

Menciono isso, pois acredito que essa relação emocional que nesses anos de vida adulta eu desenvolvi com certas baladas possui um paralelo bem direto com a devoção intensa que algumas marcas despertam em seus públicos. Conheço fiéis cujos olhos brilham diante dos logotipos da Apple, do Google ou da Prada. Em níveis mais intensos, é possível citar casos onde essa relação atinge caráter literalmente religioso. Na matéria de capa da revista Época Negócios do mês de janeiro, por exemplo, o texto que trata da Nike menciona um estúdio de tatuagem americano que já gravou o logo da empresa na pele de mais de trinta pessoas.

Penso que esse tipo de conexão pode até ter seus elementos de sorte. No entanto, ponto indispensável nessas histórias é a capacidade de identificar as aspirações do cliente e trabalhar de forma que ele se sinta profundamente sintonizado com as características que enxerga naquilo que consome. Assim, muita gente que compra Apple leva para casa inovação, design, modernidade. Enquanto isso, outros tantos saem das lojas da Prada com sacolas carregadas de exclusividade e status.

Voltando às referencias pessoais, das primeiras casas noturnas que adotei como minhas, lembro dos pontos marcantes de forma bastante sinestésica. Se por um lado detalhes sobre a tecnologia dos espaços e as novidades musicais ficaram datados, por outro, a forma como eu me sentia naqueles lugares segue validando as escolhas. Lá eu era alguém pretensiosamente atualizado, informado, desbravando a tal cultura clubber sobre a qual eu lia na Folha de São Paulo, pertencente ao que acontecia de mais legal. Parte do que eu projetava ser, naquelas pistas eu encontrava. E cabe pontuar que isso ocorria não apenas por proatividade (ou viagem) minha, mas também pela iniciativa de algum empresário com o timming certo, capaz de indentificar bem um público potencial.

Com o tempo eu mudei, minhas aspirações mudaram e meus clubes do coração também. Tal qual em um ciclo de vida de produto, depois da maturidade veio o declínio. Por vezes lento, por vezes abrupto. Fato é que ao falar de algumas baladas, eu conseqüentemente me recordo de qual era naquela fase a minha música favorita, quais eram meus companheiros de noitadas, como estava a vida profissional, quem eu namorava, que livro lia, o que planejava…  Fazer parte da história de um cliente dessa forma é projeto que exige esforço, mas sua recompensa costuma ser bem rentável.

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Responses

  1. […] (* Atualização do texto que escrevi ano passado para o blog de marketing Além do Show.) […]


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